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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Cena I: Franny perde o apetite.

- Como vai a peça? - perguntou Lane, ocupado com os caracóis.
- Não sei. Não vou trabalhar nela. Desisti.
- Desistiu? - Lane levantou os olhos do prato, surpreendido.
- Eu supunha que você andava louca com o seu papel. Que aconteceu? Deram o papel a outra?
- Não, nada disso. O papel era meu. Oh, uma chatice, uma verdadeira chatice.
- Mas então o que foi que aconteceu? Não me diga que largou o curso de teatro, largou?

Franny fez que sim com a cabeça, enquanto bebia um gole de leite.

Lane esperou que ela tivesse acabado de mastigar e de beber.

- Mas, pelo amor de Deus - disse ele então - explica por quê! Eu achava que o maldito teatro era a tua paixão. Você quase não sabia falar de outra coisa...
- Larguei tudo e pronto! O negócio já estava ficando chato. Comecei a me sentir como uma egomaníaca -. Refletiu uns instantes. - Não sei bem explicar. Acho que era de um certo mau-gosto querer trabalhar em teatro em primeiro lugar. Refiro-me à presença do ego no teatro. E detestava a mim própria, quando estava em cena e, depois, terminada a peça, ter que ir para os bastidores. Todos aqueles egos correndo afobados de um lado para o outro, e mostrando-se terrivelmente generosos e entusiásticos. Beijando todo o mundo e usando maquilagem por tudo quanto é lado, e tentar parecer terrivelmente natural e simpática quando os amigos vêm nos ver nos bastidores. Puxa, como eu me detestava nessas alturas! E o pior de tudo é que eu sentia uma espécie de vergonha por entrar nessas peças... Especialmente as do repertorio de verão -. Encarou Lane. - E eu tinha sempre bons papéis, não há razão para que você olhe pra mim desse jeito! A questão não era essa. Era, simplesmente, que eu sentiria uma vergonha terrível se, por exemplo, alguém a quem eu respeito... os meus irmãos, por exemplo... entrasse no teatro e me ouvisse recitando algumas das linhas que eu tinha de dizer. Eu costumava escrever a algumas pessoas e pedir-lhes que não fossem me ver.

Refletiu por mais alguns instantes e continuou:

- Exceto no papel de Pegeen, em Playboy, que representei no verão passado. Quer dizer, poderia ter sido espetacular mesmo, se o canastrão que fazia o playboy não estragasse tudo. Oh, meu Deus, como ele era lírico! Nunca vi um sujeito mais meloso!

Lane terminara seus caracóis. Estava imóvel, olhando para ela deliberadamente sem expressão.

- Mas ele teve boas críticas. Eu me lembro perfeitamente, você até me mandou recortes.

Franny suspirou.

- Está bem, Lane. Não vamos discutir isso, tá?
- Não. Mas uma coisa tenho de dizer, Franny. Você esteve falando quase meia hora como se fosse a única pessoa do mundo que tem bom-senso, que tem alguma capacidade crítica. Quer dizer, se alguns dos nossos melhores críticos acharam que o sujeito ia bem na peça, talvez seja verdade e você talvez esteja errada. Por acaso já lhe ocorreu isso? Você sabe... Você ainda não atingiu a maturidade, é apenas uma...
- Está certo, Lane, ele esteve extraordinário, se quisermos pensar em termos de talento. Mas se você quiser interpretar Playboy como deve ser, você terá de ser um gênio! É assim mesmo e contra isso nada há que se fazer -. Franny arqueou um pouco as costas, a boca entreaberta, como se tivesse dificuldade em respirar, e levou a mão à nuca. - Sinto-me tão estonteada, tão esquisita. Não sei o que se passa comigo.
- Você pensa que é um gênio, não é isso?

Franny retirou a mão da cabeça e deixou-a cair morta sobre a mesa.

- Oh, Lane... Por favor, não faça isso comigo.
- Mas o que foi que eu...
- Tudo o que sei é que estou perdendo o juízo. Estou farta, mas farta mesmo, de ego, ego, ego. Do meu e dos outros. Estou cheia até aqui de gente que quer fazer alguma coisa diferente, chegar onde ninguém chegou, ser alguém interessante... É um nojo... é um verdadeiro nojo. E não me interessa o que os outros digam.

Lane franziu a testa e recostou-se na cadeira, para dar maior ênfase à frase que pretendia disparar. Com uma fleuma estudada perguntou:

- Você tem certeza de que não está, simplesmente, com medo da concorrência? Eu não sou muito forte nisso, mas aposto que um bom psicanalista... isto é, um que seja verdadeiramente competente... interpretaria talvez a tua atitude como...
- Não - interrompeu Franny, secamente. - Eu não tenho medo da concorrência. Competir com os outros não me assusta. É justamente o contrário. O que me apavora é querer competir... para ganhar. Por isso larguei o curso de Arte Dramática. O fato de eu estar horrivelmente condicionada para aceitar valores de outros todos, e de gostar dos aplausos e da gente que delira à minha volta, não me impede de ver que isso tudo é errado. Tenho vergonha disso. Estou cansada disso. Repugna-me não ter a coragem de ser uma criatura como as outras... Estou farta de mim e de todos os que andam no mundo querendo fazer algum sucesso.

Calou-se, pegou no copo e levou-o aos lábios.

Franny & Zooey
J. D. Salinger

sábado, 8 de maio de 2010

Por Holden Caulfield

Depois que acabou o negócio do Natal começou a porcaria da fita. Era tão ruim que eu nem pude despregar os olhos da tela. Era sobre um camarada inglês, Alec qualquer coisa, que vai para a guerra e perde a memória no hospital e tudo. Depois sai do hospital de bengala e mancando por tudo quanto é lado, por Londres toda, sem saber quem é ou onde está. Na verdade, ele é um duque, mas não sabe de nada. Aí encontra num ônibus uma garota boazinha, caseira e sincera pra chuchu. A droga do chapéu dela cai e ele apanha e, depois que sobem, começam a conversar sobre Charles Dickens. É o escritor predileto dos dois e tudo. Ele está com o "Oliver Twist" debaixo do braço e ela também. Quase vomitei. De qualquer forma, se apaixonam de estalo, só porque os dois são tarados pelo Charles Dickens, e ele vai ajudá-la a dirigir uma editora. A moça é editora. Só que o negócio não está indo bem, porque o irmão dela é porrista e mete o pau no dinheiro todo. Era um camarada amargo pra diabo, o irmão; ele era médico, mas depois da guerra não podia mais operar porque ficou com os nervos em pandarecos. Por isso vivia enchendo a cara, mas era muito espirituoso e tudo mais. Seja como for, o tal do Alec escreve um livro, a moça publica e os dois ganham um caminhão de dinheiro. Estão com tudo pronto pra casar, quando aí aparece uma tal de Márcia. A Márcia era noiva do Alec antes dele perder a memória, e o reconhece quando ele está na loja autografando o livro. Ela diz ao Alec que ele é Duque, mas ele não acredita e não quer ir com ela visitar a mãe dele e tudo. A velhinha é cega como um morcego. Mas a outra garota, que é muito mais simples, manda ele ir. Ela é muito altruísta e tudo mais. Aí ele vai. Mas nem assim recupera a memória, nem quando o cachorro dinamarquês pula em cima dele, e a mãe passa os dedos pelo rosto dele todo e traz o ursinho que ele carregava para todo lado quando era menino. Então, um dia, uns garotos estão jogando críquete no parque e ele leva uma bolada na cabeça. Aí, na mesma hora, ele recupera a droga da memória e vai lá dentro beijar a testa da mãe e tudo. E começa a ser um duque normal, e se esquece da garota boazinha que tem a editora. Eu podia contar o resto da estória, se não me desse tanta vontade de vomitar. Não que eu fosse estragar o filme para ninguém nem nada. No duro, não há o que estragar. De qualquer forma, acaba com o Alec e a garota boazinha se casando, e o irmão que é porrista fica bom dos nervos e opera a mãe do Alec, restituindo-lhe a visão, e aí o irmão beberrão e a Márcia se apaixonam. Termina todo mundo numa baita mesa de jantar, rindo como uns idiotas porque o dinamarquês entra com uma ninhada de cachorrinhos. Acho que todo mundo pensava que o cachorro era macho ou qualquer droga parecida. Só sei dizer que, quem não quiser vomitar até morrer, não deve nem entrar no cinema quando estiver passando essa fita.

O apanhador no campo de centeio
J. D. Salinger