quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Tá tudo bem

Posso não saber nada do coração das gentes, mas tenho a impressão, de que, de tudo, o pior é quando entra a segunda parte da letra de “Atrás da porta”, ali no quando “dei pra maldizer o nosso lar pra sujar teu nome, te humilhar”. Chico Buarque é ótimo pra essas coisas. Billie Holiday é ótima pra essas coisas. E Drummond quando ensina que “o amor, caro colega, esse não consola nunca de núncaras”. Aí você saca que toda música, toda letra, todo poema, todo filme, toda peça, todo papo, todo romance, tudo e todos o tempo todo, antes, agora e depois, falam disso. Que o que você sente é único e indivisível e é exatamente igual à dor coletiva, da Rocinha a Biarritz. O coro de anjos de Antunes Filho levanta no ar, em triunfo, os corpos mortos de Romeu e Julieta enquanto os Beatles pedem um Litlle help from my friends, e a plateia ainda aplaude e pede bis (o Gonzaguinha também é ótimo pra essas coisas). Meus amigos, abandonados para que eu pudesse mergulhar, voltaram a mil. Tem seus prazeres o fim do amor. Se é patologia, invenção cristã-judaico-ocidental-capitalista, ou maya, ego, se é babaquice, piração, se mudou-através-dos-tempos, puro sexo, carência, medo da morte: não interessa. Tenho certeza que estive lá, naquele terreno. Ele existe.

(…)

O que quero dizer é justamente o que estou dizendo. Não estou com pena de mim. Tá tudo bem. Tenho tomado banho, cortado as unhas, escovado os dentes, bebido leite. Meu coração continua batendo - taquicárdico, como sempre. Dá licença, Bob Dylan: it’s all right man, I’m just bleeding. Tá limpo. Sem ironias. Sem engano. Amanhã, depois, acontece de novo, não fecho nada, não fechamos nada, continuamos vivos e atrás da felicidade, a próxima vez vai ser ainda quem sabe mais celestial que desta, mais infernal também, pode ser, deixa pintar. Se tiver aprendido lições (amor é pedagógico?), até aproveito e não faço tanta besteira. Mas acho que amor não é cursinho pré-vestibular. Ninguém encontra seu nome no listão dos aprovados. A gente só fica assim. Parado olhando a medida do Bonfim no pulso esquerdo, lado do coração e pensando, pois é, vejam só, não me valeu.

De Caio Fernando Abreu, retirado do livro Para sempre teu, Caio F., de Paula Dip.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Para Maria da Graça

Agora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
Escuta, se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isto a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.
A realidade, Maria, é louca.
Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?”
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares esta charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta. O importante é dar ou inventar uma resposta, ainda que seja mentira.
A sozinhez ( esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes consequências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social, ou de bolso: nem toda sabedoria tem de ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia. Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gatos se fosses eu?”
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas, muitas vezes, por caminhos tão escondidos que quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! Mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, apostar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: “Minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo”. Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.
Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso, Alice depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida. É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

Paulo Mendes Campos

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Lo lee ta.

Lolita, light of my life, fire of my loins.
My sin, my soul.
Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth.
Lo-lee-ta.
She was Lo, plain Lo, in the morning, standing four feet ten in one sock.
She was Lola in slacks.
She was Dolly in school.
She was Dolores on the dotted line.
But in my arms she was always Lolita.

Vladimir Nabokov

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

it's all about me

this is about who i am and what i want it's not about who you are and what you want.
you always think everything i write is about you but it's not.
it's all about me.
so don't get upset and say that i misunderstand you because it's not your words i'm writing it's mine.
i don't care about you and i don't care what you want - just shut up and listen.
and i'll leave some space at the end so you can write who you are and what you think you want.
at times i may write about my feelings towards you and what i think about you - but don't get excited it's still about me and how i feel - i'm just trying to make you understand.

who i am and what i want
david shrigley

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

As ferraduras do velho babão

Eu tinha talento, tenho talento. Às vezes olhava minhas mãos e compreendia que podia ter sido um grande pianista. Mas o que tinham feito minhas mãos? Coçado o saco, preenchido cheques, amarrado cadarços, puxado descargas de banheiro, etc. Desperdicei minhas mãos. E minha mente.

Andei até a livraria me sentindo meio deprimido. O homem nascia para morrer. O que significava isso? Ficar por ai esperando. Esperando o “Trem A”. Esperando um par de peitões numa noite de julho num quarto de hotel da esquina. Esperando o rato cantar. Esperando a cobra criar asas. Por aí.

Aquela não era ela. Ou talvez tivesse descoberto um método de vencer o processo de envelhecimento. Era só ver os astros do cinema; tiravam a pele do rabo e grudavam na cara. A pele do rabo era a última a enrugar-se. Andavam todos, nos últimos anos de vida, com caras de bunda. Ela faria isso? Quem queria viver até os 102 anos? Só um idiota. Por que ela desejaria ficar? Toda aquela coisa era maluca. Dona morte era maluca. Eu era maluco. Os pilotos das companhias aéreas eram malucos. Nunca se deve olhar para o piloto. Só embarcar e pedir bebida.

Ela perguntou o que eu faria por ela.
- Bem, mataria minha baratinha de estimação por você, daria uma surra em minha mãe se ela estivesse aqui, eu...
Olhei em volta, procurei uma mosca pra matar.
- Bom, então o que está esperando, a última rosa do verão?
Um detetive sem um ferro é como um garanhão de camisinha. Ou como um relógio sem ponteiro.
- Você ficou louca?
- Quem sabe? A insanidade é relativa. Quem estabelece a norma?

Do lado de fora, atravessei decidido a poluição. Tinha os olhos castanhos, os sapatos velhos e ninguém me amava. Mas tinha coisas a fazer.

Tampei a garrafa, guardei-a de volta na gaveta e pensei no que ia fazer em seguida. Um homem como eu tem sempre coisas a fazer. A gente vê no cinema.
Uma batida da porta. Não, foram cinco batidas uma atrás da outra. Batidas insistentes. Sempre faço uma leitura das batidas. Às vezes, quando a leitura é ruim, não atendo.

Começava a me sentir estranho. Qual era o problema? Estaria a dama me excitando? Ela tinha intestinos como todo mundo. Tinha pêlos nas narinas. Cera nas orelhas. Qual era a grande coisa? Por que o pára-brisa ondulava à minha frente como uma grande onda? Devia ser a ressaca. Vodca com cerveja para rebater. A gente tinha de pagar. O bacana em tomar um porre, porém, era que nunca se tinha prisão de ventre. Às vezes eu pensava em meu fígado, mas ele jamais se manifestava, jamais dizia: “Pára com isso, está me matando e eu vou te matar!”. Assim como meu peito. Meu peito carregava uma bomba que não tinha contagem regressiva. Ela simplesmente explodia. E naquele dia, ela explodiu como um meteoro.
Por isso eu bebia mais. Se a gente tivesse fígados ou corações que falassem, não existiriam os fracassados.

Senti-me introspectivo.
Decidi não fazer mais nada nesse dia.
A vida consumia a gente, consumia mesmo.
Amanhã seria um dia melhor.

No outro dia eu passava mal. Uma fisgada do lado esquerdo do peito.
Estou tendo um ataque cardíaco, pensei. Mas não, aquela fisgada se chamava “falta”.
Ainda não existe a solução pra isso, mas se existisse seria um tubo que suga toda falta pela garganta. Eu colocaria tudo aquilo num pote e olharia, pra lembrar de jogar fora o recheio do amor.

Eu sentia que chegava perto de alguma coisa. Uma coisa bem grande. Tirei a mão do bolso e peguei o celular. Depois larguei de novo. Pra quem diabos eu iria ligar? E eu já sabia que horas eram. Eu tinha de pensar. Tentei pensar. Uma mosca se arrastava na mesa. Enrolei uma revista e dei-lhe uma porrada; errei. Não era o meu dia. Nem minha semana. Nem meu mês. Nem meu ano. Nem minha vida. Porra.

À noite do mesmo dia, eu oscilava. Eu mudava de hora em hora.

Sai daquela casa e de repente me sentia melhor em relação a tudo. O primeiro vagabundo que me abordou ganhou um real. Ao segundo eu disse que acabara de dar um real ao outro vagabundo. Terceiro vagabundo, mesma coisa. Nem o ar estava poluído naquele dia. Eu avançava com determinação. Já decidira sobre o almoço. Macarrão ao molho branco. Meus pés pareciam bonitos andando na calçada.

Tudo o que posso dizer é que existem bilhões de mulheres no mundo, certo? Algumas bem vistosas. Muitas muito bonitas. Mas de vez em quando a natureza nos sai com um truque bestial, reúne todos os atributos numa mulher especial, uma mulher inacreditável. Quer dizer, a gente olha e não acredita. Tudo se move em perfeita ondulação, mercúrio, serpente, a gente vê umas cadeiras, um cotovelo, uns peitos, um joelho, e tudo se funde numa unidade gigantesca, um todo inesquecível. Aqueles olhos lindíssimos a sorrir, os lábios imóveis como prontos para estourar uma gargalhada, pela sensação de impotência da gente. E elas sabem se vestir, e o cabelo longo incendeia o ar. Tudo demais, porra.

Fiquei sentado na cama, tentando não me mexer. Não queria que aquela ansiedade chegasse de novo. Tinha tempo de pensar na minha carreira. Talvez estivesse na profissão errada. Mas era tarde demais pra começar qualquer outra coisa. Finalmente me mexi. Ainda tinha forças pra levar o copo de água aos lábios. Esvaziei-o. Joguei-o no chão. Fiquei esperando o sono chegar. Ouvi gritos lá fora e percebi que estava tudo bem com o mundo. Em cinco minutos, dormia como uma pedra.

Levantei-me e fui ao banheiro. Me dava raiva olhar o espelho, mas olhei assim mesmo. Vi depressão e derrota. Bolsas escuras caídas sob os olhos. Olhinhos covardes; os olhos do rato acuados pelo puto do gato. A pele aparecia que nem tentava, que odiava fazer parte de mim. As sobrancelhas caíam retorcidas, pareciam dementes, dementes pêlos de sobrancelhas. Horrível. Uma aparência repugnante. Então fui escovar os dentes. Dentes. Tínhamos de comer. E comer e comer e comer de novo. Éramos todos repugnantes, condenados aos nossos trabalhinhos sujos. Comer e peidar e se coçar e sorrir e festejar nos feriados. Terminei de escovar e voltei pra cama. Decidi ficar até o meio-dia. Talvez metade do mundo estivesse morta e ele seria metade menos difícil de enfrentar. Aí o celular tocou. Deixei tocar. Nunca atendia ao celular na parte da manhã. Tocou duas vezes e parou. Eu estava sozinho comigo mesmo. E, por mais repugnante que fosse, era melhor do que estar com alguém, qualquer um, todos lá fora fazendo seus pequenos truques e piruetas. Puxei as cobertas até o pescoço e esperei.

Fui a uma psicóloga. Esperei, esperei. Esperamos e esperamos. Todos nós. Não saberia a psicóloga que a espera é uma das coisas que fazem as pessoas ficarem loucas? Esperavam pra viver. Esperavam pra morrer. Esperavam pra comprar papel higiênico. Esperavam na fila pra pegar dinheiro. E, se não tinham dinheiro, precisavam esperar em filas mais longas. A gente tinha de esperar pra dormir e esperar pra acordar. Tinha de esperar pra se casar e esperar pra se separar. Esperar pela chuva e esperar pelo sol. Esperar pra comer e esperar pra comer de novo. A gente tinha de esperar na sala de espera de uma psicóloga, e começava a pensar se não estava ficando triste também.

As encrencas e a dor é que mantém a gente vivo. Um trabalho de tempo integral. E às vezes nem dormindo dá pra descansar. No meu último sono, eu me via embaixo de um elefante, não podia me mexer e ele soltava um dos maiores cagalhões que eu já vira, já ia cair, e aí meu gato, Hamburguer, passou por cima da minha cabeça e eu acordei. Se a gente contar esse sonho a uma psicóloga, ela vai tirar uma conclusão horrível. Pois se a gente lhe paga o salário, ela vai dar um jeito pra que a gente se sinta mal, pra que a gente a sustente pro resto da vida. Vai dizer que o cagalhão é um sinal e que a gente está assustado ou que deseja aquilo. É só um sonho sobre um grande cagalhão de elefante, nada mais. Às vezes as coisas são apenas o que aparecem ser, sem nada demais. O melhor intérprete de um sonho é o próprio sonhador. Guarde o seu dinheiro no bolso. Ou aposte num bom cavalo.

- Você é uma filósofa medíocre. – Ela disse.
- Pra mim, eu sou perfeito. – Respondi.
- A gente vive de ilusões. – Ela disse.
- E qual o problema? O que é que tem de pior por aí? – Eu perguntei.
- O fim das ilusões. – Ela respondeu.

Me sentia esquisito. Como se nada tivesse importância, sabe como é?
Ela aqui ou ela lá. O jogo me cansou. Perdeu a graça pra mim. A existência era não só absurda, era simplesmente trabalho pesado. Pense em quantas vezes a gente veste roupa de baixo durante toda a vida. É surpreendente. É estúpido.

Então ouvi a sirene de uma ambulância. Estava aliviado.
Quando a gente não ouve, a sirene é pra gente.

Passei a pensar em soluções pra vida. As pessoas que resolviam as coisas em geral tinham muita persistência e um pouco de sorte. Se a gente persistisse o bastante, a sorte em geral chegava. Mas a maioria das pessoas não podia esperar, por isso desiste.

Na verdade, me dava vontade de deitar em algum lugar e dormir umas duas semanas. O jogo estava me cansando. Um dado momento havia uma certa emoção. Não muita, mas alguma. Você não vai querer ouvir. Amante rejeitado três vezes. Nada pra fazer além de curar corações aflitos que ninguém cura. Não pelo preço que eu cobro.

Tinha os olhos castanhos, os sapatos velhos e ninguém me amava. Com exceção de mim mesmo.

Bom, o jogo não funcionou. Todo mundo estava fodido. Não havia vencedores. Só vencedores aparentes. Todos nós corríamos atrás de nada. Dia após dia. Sobreviver parecia a única necessidade. Não parecia o bastante.

A vida estava chata. Me senti oprimido, gasto. Os pés doíam.

Quase bati o carro outro dia. Ouvi buzinas e alguém me chamando de babaca. Essa gente não tem originalidade.

Todo mundo está certo e errado, e de pernas pro ar. A verdade é que as pessoas se prendem. Uma vez que corta o cordão umbilical, a gente se prende a outras coisas. Vistas, som, sexo, miragem, mães, masturbação, assassinato e ressaca de segunda-feira.

Comecei a pensar em outro trabalho. Ali estava eu, prestes a me deixar levar de novo, e francamente, não tinha nenhum gosto por isso. Só esperando o último dia ou a última noite. Contando tempo. Que merda. Eu daria um grande filósofo. Diria a todo mundo como somos tolos, zanzando por aí a sugar ar pra dentro e pra fora dos pulmões.

Tomei um copo d’água. E tomei a liberdade de me sentir bem. Por enquanto.

Fui a um restaurante outro dia. O garçom apareceu. Cara de solitário. Não tinha sobrancelha nenhuma. Um tipo maluco. Não havia como evitá-los. A maior parte do mundo estava doida. E a parte que não era doida era furiosa. E a parte que não era doida nem furiosa era apenas idiota. Eu não tinha chance. Só agüentar e esperar pelo fim. Era trabalho duro.

A Terra. Poluição, violência, ar envenenado, água envenenada, comida envenenada, o ódio, a impotência, tudo. A única coisa bonita na Terra são os animais, e já estão sendo dizimados, cedo estarão extintos, com exceção dos cavalos e ratos de estimação. É tão triste, não admira que eu beba tanto.

Frequentemente, os melhores momentos da vida são quando a gente não está fazendo nada, só meditando, ruminando. Quer dizer , a gente pensa que todo o mundo é sem sentido, ai vê que não pode ser tão sem sentido assim se a gente percebe que é sem sentido, e essa consciência de falta de sentido já é quase um pouco de sentido. Sabe como é? Um otimismo pessimista.

Era hora de recapitular, recapitular pra mim mesmo. Afinal de contas, eu tinha feito tudo o que havia me proposto na vida. Dera os passos certos. Não dormia na rua. Claro, havia um bocado de gente boa dormindo nas ruas. Não eram idiotas, apenas não se encaixavam na maquinaria necessária no momento. E essas necessidades viviam mudando. Era uma luta desigual, e se a gente dormia na própria cama já era uma vitória preciosa contra as forças. Eu tive sorte, mas em alguns dos passos que dera não os dera inteiramente sem pensar. Em geral, porém, em um mundo horrível, e eu muitas vezes me sentia triste pelos outros.

- Tenho medo de você, é muito agressivo. – Ela disse.
- Mas você mesma viu que ela está me matando. – Eu disse.
- Na certa não tinha essa intenção. – Ela disse.
- A gente não vai nos “na certa” quando se trata de amor e armas.

Eu falhei com o amor. Nada realmente errado de cada vez. Tudo destruído por briguinhas bestas. Implicâncias por nada. Sentir ódio por tudo e por nada. Dia a dia, ano a ano, ralando. Em vez de se ajudar um ao outro, a gente se cortava todos os dias, por uma coisa e outra. Uma aporrinhação infindável. Torna-se uma competição barata. E, uma vez que a gente entra, vira um hábito. Parece que não vai conseguir sair. E de repente, sai. Completamente.
Portanto, agora, ali estava eu. Sentado ouvindo a chuva. Se eu morresse agora, ninguém verteria uma lágrima em todo o mundo. Não que eu precisasse disso. Mas é estranho. Até onde um trouxa pode ficar solitário? Mas o mundo estava cheio de velhos rabugentos como eu. Sentados ouvindo a chuva e pensando para onde foi todo mundo. Aí é que a gente sabe que está velho, quando fica pensando pra onde foi todo mundo.

Me sentia insatisfeito e, francamente, meio com medo de tudo. Não estava indo a lugar nenhum nem o resto do mundo. Estávamos todos rondando por aí, à espera da morte, e enquanto isso fazendo coisinhas pra encher o tempo. Alguns nem faziam coisinhas. Eram vegetais. Eu era um deles. Não sei que tipo de vegetal. Me sentia um nabo. Coloquei uma música, acendi um cigarro e fiquei fingindo que sabia o que diabos estava acontecendo.

Tinha uma tendência a me preocupar quando não havia nada com o que se preocupar. E quando havia alguma preocupação real eu tomava um porre.

Gente chata da porra. A Terra está cheia deles. Propagando mais gente chata. Um espetáculo de horror . A Terra botando chatos pelo ladrão.

Eram dez horas da noite. A lua estava cheia e minha vida não tinha sentido.
De alguma forma aquela coisa pequena me fez sentir bem. Eu era de fácil agradar. O resto do mundo é que era o problema.

Pulp
Charles Bukowski

domingo, 4 de julho de 2010

Filó, a fadinha lésbica

Ela era gorda e miúda.
Tinha pezinhos redondos.
A cona era peluda
Igual à mão de um mono.
Alegrinha e vivaz
Feito andorinha
Às tardes vestia-se
Como um rapaz
Para enganar mocinhas.
Chamavam-lhe "Filó, a lésbica fadinha".
Em tudo que tocava
Deixava sua marca registrada:
Uma estrelinha cor de maravilha
Fúcsia, bordô
Ninguém sabia o nome daquela cô.
Metia o dedo
Em todas as xerecas: loiras, pretas
Dizia-se até...
Que escarafunchava bonecas.
Bulia, beliscava
Como quem sabia
O que um dedo faz
Desde que nascia.
Mas à noite... quando dormia...
Peidava, rugia... e...
Nascia-lhe um bastão grosso
De início igual a um caroço
Depois...
Ia estufando, crescendo
E virava um troço
Lilás
Fúscia
Bordô
Ninguém sabia a cô do troço
da Fadinha Filó.
Faziam fila na Vila.
Falada "Vila do Troço".
Famosa nas Oropa
Oiapoc ao Chuí
Todo mundo tomava
Um bastão no oiti.
Era um gozo gozoso
Trevoso, gostoso
Um arrepião nos meio!
Mocinhas, marmanjões
Ressacadas velhinhas
Todo mundo gemia e chorava
De pura alegria
Na Vila do Troço.
Até que um belo dia...
Um cara troncudão
Com focinho de tira
De beiço bordô, fúscia ou maravilha
(ninguém sabia o nome daquela cô)
Sequestrou Fadinha
E foi morar na ilha.
Nem barco, nem ponte
O troncudão nadando feito rinoceronte
Carregava Fadinha.
De pernas abertas
Nas costas do gigante
Pela primeira vez
Na sua vidinha
Filó estrebuchava
Revirando os óinho
Enquanto veloz veloz
O troncudão nadava.
A Vila do Troço
Ficou triste, vazia
Sorumbática, tétrica
Pois nunca mais se viu
Filó, a Fadinha lésbica
Que à noite virava fera
E peidava e rugia
E nascia-lhe um troço
Fúscia
Lilás
Maravilha
Bordô
Até hoje ninguém conhece
O nome daquela cô.
E nunca mais se viu
Alguém-Fantasia
Que deixava uma estrela
Em tudo que tocava
E um rombo na bunda
De quem se apaixonava.

Moral da estória, em relação à Fadinha:
Quando menos se espera, tudo reverbera.

Moral da estória, em relação ao morador
da Vila do Troço:
Não acredite em fadinhas.
Muito menos com cacete.
Ou somem feito andorinhas
Ou te deixam cacoetes.

Bufólicas
Hilda Hilst

sábado, 3 de julho de 2010

O casamento do Não (65)

Na galáxia teatral do Não, destaca-se, com luz própria, ao lado da obrazinha de Manieri, El no, a última peça teatral escrita por Virgilio Piñera, o grande escritor cubano.
Em El no, obra estranha e até muito pouco tempo inédita - foi publicada no México pela editora Vuelta -, Piñera nos apresenta um casal de namorados que decidem não se casar jamais.
O princípio essencial do teatro de Piñera foi sempre apresentar o trágico e o existencial por meio do cômico e do grotesco. Em El no leva até as últimas consequências seu sentido do humor mais negro e subversivo: o não do casal - em óbvia oposição ao tão batido "sim" dos casamentos cristãos - outorga-lhe uma consciência minúscula, uma diferença culpada.
No exemplar que possuo, o prefaciador, Ernesto Hernández Busto, comenta que, com um magistral jogo irônico, Piñera coloca os protagonistas da tragédia cubana em uma representação da hybris às avessas: se os clássicos gregos concebiam um castigo divino para o exagero das paixões e para o afã dionisíaco do excesso, em El no os personagens principais "passam dos limites" no sentido oposto, violam a ordem estabelecida a partir do extremo contrário ao do desenfreio carnal: um ascetismo apolíneo é o que os transforma em monstros.
Os protagonistas da obra de Piñera dizem não, negam-se categoricamente ao sim convencional. Emília e Vicente praticam uma negativa obstinada, uma ação mínima que, no entanto, é a única coisa que possuem para poder ser diferentes. Sua negativa coloca em funcionamento o mecanismo justiceiro da lei do sim, representado primeiro pelos pais e depois por homens e mulheres anônimos. Pouco a pouco, a ordem repressiva da família vai se ampliando ao ponto em que, no fim, intervém até mesmo a polícia, que se dedica a uma "reconstrução dos fatos" que terminará com a declaração de culpabilidade dos noivos que se negam a se casar. No fim, decreta-se o castigo. É um desfecho genial, próprio de um Kafka cubano. É uma grande explosão do não em seu maravilho precipício subversivo:
HOMEM: Dizer não agora é fácil. Veremos em um mês (pausa). Além disso, à medida que a negativa se multiplicar, tornaremos mais longas as visitas. Chegaremos a passar as noites com vocês, e é provável, depende de vocês, que nos instalemos definitivamente nesta casa. Diante dessas palavras, o casal decide se esconder.
- Que você acha desse joguinho? - pergunta Vicente a Emília.
- É de arrepiar os cabelos - responde ela.
Decidem esconder-se na cozinha, sentar-se no chão, bem abraçados, abrir a torneira do gás, e que os casem, se puderem!

Bartleby e companhia
Enrique Vila-Matas