domingo, 4 de julho de 2010

Filó, a fadinha lésbica

Ela era gorda e miúda.
Tinha pezinhos redondos.
A cona era peluda
Igual à mão de um mono.
Alegrinha e vivaz
Feito andorinha
Às tardes vestia-se
Como um rapaz
Para enganar mocinhas.
Chamavam-lhe "Filó, a lésbica fadinha".
Em tudo que tocava
Deixava sua marca registrada:
Uma estrelinha cor de maravilha
Fúcsia, bordô
Ninguém sabia o nome daquela cô.
Metia o dedo
Em todas as xerecas: loiras, pretas
Dizia-se até...
Que escarafunchava bonecas.
Bulia, beliscava
Como quem sabia
O que um dedo faz
Desde que nascia.
Mas à noite... quando dormia...
Peidava, rugia... e...
Nascia-lhe um bastão grosso
De início igual a um caroço
Depois...
Ia estufando, crescendo
E virava um troço
Lilás
Fúscia
Bordô
Ninguém sabia a cô do troço
da Fadinha Filó.
Faziam fila na Vila.
Falada "Vila do Troço".
Famosa nas Oropa
Oiapoc ao Chuí
Todo mundo tomava
Um bastão no oiti.
Era um gozo gozoso
Trevoso, gostoso
Um arrepião nos meio!
Mocinhas, marmanjões
Ressacadas velhinhas
Todo mundo gemia e chorava
De pura alegria
Na Vila do Troço.
Até que um belo dia...
Um cara troncudão
Com focinho de tira
De beiço bordô, fúscia ou maravilha
(ninguém sabia o nome daquela cô)
Sequestrou Fadinha
E foi morar na ilha.
Nem barco, nem ponte
O troncudão nadando feito rinoceronte
Carregava Fadinha.
De pernas abertas
Nas costas do gigante
Pela primeira vez
Na sua vidinha
Filó estrebuchava
Revirando os óinho
Enquanto veloz veloz
O troncudão nadava.
A Vila do Troço
Ficou triste, vazia
Sorumbática, tétrica
Pois nunca mais se viu
Filó, a Fadinha lésbica
Que à noite virava fera
E peidava e rugia
E nascia-lhe um troço
Fúscia
Lilás
Maravilha
Bordô
Até hoje ninguém conhece
O nome daquela cô.
E nunca mais se viu
Alguém-Fantasia
Que deixava uma estrela
Em tudo que tocava
E um rombo na bunda
De quem se apaixonava.

Moral da estória, em relação à Fadinha:
Quando menos se espera, tudo reverbera.

Moral da estória, em relação ao morador
da Vila do Troço:
Não acredite em fadinhas.
Muito menos com cacete.
Ou somem feito andorinhas
Ou te deixam cacoetes.

Bufólicas
Hilda Hilst

sábado, 3 de julho de 2010

O casamento do Não (65)

Na galáxia teatral do Não, destaca-se, com luz própria, ao lado da obrazinha de Manieri, El no, a última peça teatral escrita por Virgilio Piñera, o grande escritor cubano.
Em El no, obra estranha e até muito pouco tempo inédita - foi publicada no México pela editora Vuelta -, Piñera nos apresenta um casal de namorados que decidem não se casar jamais.
O princípio essencial do teatro de Piñera foi sempre apresentar o trágico e o existencial por meio do cômico e do grotesco. Em El no leva até as últimas consequências seu sentido do humor mais negro e subversivo: o não do casal - em óbvia oposição ao tão batido "sim" dos casamentos cristãos - outorga-lhe uma consciência minúscula, uma diferença culpada.
No exemplar que possuo, o prefaciador, Ernesto Hernández Busto, comenta que, com um magistral jogo irônico, Piñera coloca os protagonistas da tragédia cubana em uma representação da hybris às avessas: se os clássicos gregos concebiam um castigo divino para o exagero das paixões e para o afã dionisíaco do excesso, em El no os personagens principais "passam dos limites" no sentido oposto, violam a ordem estabelecida a partir do extremo contrário ao do desenfreio carnal: um ascetismo apolíneo é o que os transforma em monstros.
Os protagonistas da obra de Piñera dizem não, negam-se categoricamente ao sim convencional. Emília e Vicente praticam uma negativa obstinada, uma ação mínima que, no entanto, é a única coisa que possuem para poder ser diferentes. Sua negativa coloca em funcionamento o mecanismo justiceiro da lei do sim, representado primeiro pelos pais e depois por homens e mulheres anônimos. Pouco a pouco, a ordem repressiva da família vai se ampliando ao ponto em que, no fim, intervém até mesmo a polícia, que se dedica a uma "reconstrução dos fatos" que terminará com a declaração de culpabilidade dos noivos que se negam a se casar. No fim, decreta-se o castigo. É um desfecho genial, próprio de um Kafka cubano. É uma grande explosão do não em seu maravilho precipício subversivo:
HOMEM: Dizer não agora é fácil. Veremos em um mês (pausa). Além disso, à medida que a negativa se multiplicar, tornaremos mais longas as visitas. Chegaremos a passar as noites com vocês, e é provável, depende de vocês, que nos instalemos definitivamente nesta casa. Diante dessas palavras, o casal decide se esconder.
- Que você acha desse joguinho? - pergunta Vicente a Emília.
- É de arrepiar os cabelos - responde ela.
Decidem esconder-se na cozinha, sentar-se no chão, bem abraçados, abrir a torneira do gás, e que os casem, se puderem!

Bartleby e companhia
Enrique Vila-Matas

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O curioso caso de Paranoico Pérez (60)

Paranoico Pérez nunca conseguiu escrever um livro, porque sempre que tinha alguma ideia para um e se dispunha a fazê-lo, Saramago o escrevia antes dele. Paranoico Pérez acabou transtornado. Seu caso é uma variante interessante da síndrome de Bartleby.
- Escute, Pérez, e o livro que estava preparando?
- Não o farei mais. Outra vez Saramago roubou-me a ideia.
Paranoico Pérez é um admirável personagem criado por Antonio de la Mota Ruiz, jovem autor da cidade de Santander que acaba de publicar seu primeiro livro, um volume de contos intitulado Guía de lacónicos, obra que passou um tanto despercebida e que, apesar de ser um conjunto irregular de narrativas, não me arrependo de ter comprado e lido, pois ele me trouxe a surpresa e o ar fresco desse conto protagonizado por Paranoico Pérez e que se chama "Iba siempre delante y era extraño, extrañito", o último do volume e provavelmente o melhor, embora seja um conto um tanto desordenado, ou, caso se prefira, bastante imperfeito; mas não é nada descartável, ao menos para mim, a figura desse curioso bartleby inventado pelo autor.
O conto transcorre inteiramente na Casa de Saúde de Cascais, no manicômio dessa cidade perto de Lisboa. Na primeira cena vemos o narrador, Ramón Ros - um jovem catalão criado em Lisboa -, passeando tranquilamente com o doutor Gama, a quem foi visitar para fazer uma consulta sobre a "psiconeurose intermitente". De repente, chama a atenção de Ramón Ros a súbita aparição, entre os loucos, de um jovem muito alto, imponente, de olhar vivo e arrogante, que a direção da Casa permite andar disfarçado de senador romano.
- É melhor não contrariá-lo e deixar que ande assim. Coitado!
Acredita que está vestido de personagem de um futuro romance - diz o doutor Gama, um tanto enigmático.
Ramón Ros pede que o apresente ao louco.
- Como? Você quer conhecer Paranoico Pérez? - pergunta-lhe o doutor.
Toda a narrativa, toda a história de "Iba siempre delante y era extraño, extrañito", é a transcrição fiel, por parte de Ramón Ros, de tudo o que lhe conta Paranoico Pérez.
"Enfim, ia escrever meu primeiro romance", começa contando-lhe Paranoico, "uma história em que eu estivera trabalhando arduamente e que transcorria inteira, inteirinha, naquele grande convento que há na estrada de Sintra, ia dizer de Sintrita, quando de repente, ante minha absoluta perplexidade, vi um dia, nas vitrinas das livrarias, um livro assinado por um tal de Saramago, um livro intitulado Memorial do convento, ai mãe, mãezinha minha...".
Paranoico Pérez, inclinado a incluir diminutivos em tudo o que conta, vai debulhando sua história, explica como ficou gelado, cheio de temores que logo confirmou quando viu que o romance de Saramago era "espantosamente igual, mas igualzinho", àquele que havia planejado escrever.
"Fiquei surpreso", prossegue Paranoico, "bem surpresinho e sem saber o que pensar de tudo aquilo, até que um dia ouvi alguém dizer que às vezes há históia que nos chegam em forma de voz, uma voz que fala em nosso interior e que não é a nossa, não é a nossazinha. Disse-me que essa era a melhor explicação que pudera encontrar para entender o fato tão insólito que havia ocorrido comigo, disse-me que era muito provável que tudo o que eu havia planejado para meu romance tivesse sido transferido, em forma de voz interior, à mente do senhor Saramago...".
Pelo que vai contando Paranoico Pérez, tomamamos conhecimento de que ele, recuperado da crise que lhe sobreveio após o estranho acontecimento, começou a pensar alegremente em outro romance e planejou com minúcias uma história que seria protagonizada por Ricardo Reis, o heterônimo de Fernando Pessoa. Naturalmente, foi grande a surpresa de Paranoico quando, ao se dispor a redigir sua história, apareceu nas livrarias O ano da morte de Ricardo Reis, o novo romance de Saramago.
"Ia sempre adiante e era estranho, estranhozinho", comenta Paranoico com o narrador, referindo-se, é claro, a Saramago. E pouco depois lhe conta que, quando dois anos mais tarde apareceu A jangada de pedra, ele ficou petrificado diante do novo livro de Saramago, pois se lembrou de que tivera, fazia tão somente uns, um sonho e posteriormente uma ideia muito parecida, parecidinha, com a que de desenrolavanaquele novo livro do escritor que tinha o mau hábito de antecipar-se daquela forma tão insistente e esquisita, tão esquisitinha.
Os amigos de Paranoico começaram a rir dele e a dizer-lhe que procurasse desculpas mais convincentes para justificar por que não escrevia. Seus amigos passaram a chamá-lo de paranoico quando ele os acusou de dar informações a Saramago. "Nnunca mais vou lhes contar nenhum dos planos que eu tenha para escrever um romance. Depois, vocês vão e contam tudo a esse Saramago.", disse-lhes. E eles, é claro, riam.
Um dia, Paranoico, vencendo sua timidez, escreveu uma carta a Saramago em que, depois de se interessar pela tema de seu próximo romance, concluía advertindo-o de que pensava em tomar sérias medidas assassinas se seu livro seguinte transcorresse, como o que ele já havia pensado, na cidade de Lisboa. Quando apareceu História do cerco de Lisboa, o novo romance de Saramago, plantou-se diante da casa deste vestido de senador romano. Em uma das mãos levava uma faixa na qual manifestava sua grande satisfação por ter-se transformado em um personagem vivo daquele que seria o romance seguinte de Saramago. Porque Paranoico, que acabava de imaginar uma história sobre a decadência do Império Romano, estava convencido de que Saramago já lhe havia roubado a ideia e escrevia sobre o mundo dos senadores daquela Roma agonizante.
Vestido como personagem do futuro romance de Saramago, Paranoico queria apenas demonstrar ao mundo que conhecia perfeitamente o romance secreto que Saramgo estava preparando.
- Já que não me deixa escrever - disse a alguns jornalistas que se interessaram por seu caso -, ao menos que me deixe ser um personagem vivo de seu futuro romance.
"Colocaram-me em um manicômio", contou Paranoico a Ramón Ros, "que se há de fazer? Não acreditam em mim, acreditam em Saramago, que é mais importante. Assim é a vida."
Paranoico comenta isso, e a narrativa começa a chegar ao fim. Cai a noite, diz-nos o narrador. É uma noite única, esplêndida. A lua estava localizada de tal modo sobre os arcos do jardim da Casa de Saúde que bastaria esticar a mão para pegá-la. O narrador põe-se a olhar a lua e acende um cigarro. Os enfermeiros começam a levar Paranoico. Ao longe, fora da Casa de Saúde, ouve-se o latido de um cão. O narrador, sem nenhuma relação - parece-me -, lembra-se daquele rei da Espanha que morreu uivando para a lua.
Portanto, Paranoico revela outro caso de síndrome de Bartleby. Aquela de que sofre o mesmíssimo Saramago.
"Embora não seja vinagtivo", conclui Paranoico, "sinto uma alegria infinita ao ver que, desde que lhe deram o prêmio Nobel, já conta com catorze doutorados honoris causa e ainda o esperam muito mais. Isso o mantém tão ocupado que não escreve mais nada, renunciou à literatura, tornou-se um ágrafo. Fico muito satisfeito de ver que, ao menos, fez-se justiça e souberam castigá-lo...".

Bartleby e companhia
Enrique Vila-Matas

domingo, 6 de junho de 2010

A arte da negativa (12) - Hart Crane

(...)

Quanto a Hart Crane, é preciso dizer, em primeiro lugar, que nasceu em Ohio, filho de um rico industrial, e que, quando menino, foi muito afetado pela separação dos pais, motivo de uma profunda ferida emocional que o levou a tocar sempre as raias da loucura.
Acreditou ver na poesia a única saída possível para seu drama e, durante um tempo, encharcou-se de leituras poéticas, chegou-se a dizer que tinha lido toda a poesia do mundo. Daí talvez proceda a máxima exigência que ele determinava a si mesmo para abordar a própria obra poética. Perturbou-o muito o pessimismo cultural que viu em A terra desolada, de T. S. Eliot, e que, para ele, levava a lírica mundial a um beco sem saída precisamente no espaço, o da poesia, em que havia vislumbrado o único ponto de fuga possível para sua dramática experiência de filho de pais separados.
Escreveu A ponte, poema épico com que obteve inumeráveis elogios, mas que, devido a seu nível de autoexigência, não o satisfez, pois pensava poder chegar, em poesia, a cumes muito mais altos.
Foi quando decidiu viajar ao México com a ideia de escrever um poema épico como A ponte, mas com profundidade maior, já que desta vez o tema escolhido era Montezuma. No entanto, a figura desse imperador (que logo lhe pareceu excessiva, descomunal, totalmente inatingível para ele) acabou provocando-lhe sérios transtornos mentais que o impediram de escrever o poema e o levaram à convicção - a mesma que, sem saber, Franz Kafka havia tido anos antes - de que a única coisa sobre a qual se podia escrever era algo muito deprimente; disse a si mesmo que só era possível escrever sobre a impossibilidade essencial da escrita.
Uma tarde, embarcou em Veracruz rumo a Nova Orleans. Embarcar significou para ele renunciar à poesia. Nunca chegou a Nova Orleans, desapareceu em pleno Golfo do México. O último a vê-lo foi John Martin, um comerciante de Nebraska que esteve falando com ele sobre assuntos triviais, no convés do barco, até que Crane proferiu o nome de Montezuma e seu rosto assumiu um alarmante ar de homem humilhado. Tentando dissimular seu repentino aspecto sombrio, Crane mudou imediatamente de assunto e perguntou se era verdade que havia duas Nova Orleans.
- Que eu saiba - disse Martin -, existe a cidade moderna e a que não é.
- Eu irei à moderna para dali caminhar ao passado - disse Crane.
- Gosta do passado, senhor Crane?
Não respondeu à pergunta. Ainda mais sombrio do que alguns segundos antes, afastou-se lentamente dali. Martin pensou, se voltasse a encontrá-lo no convés, tornaria a perguntar se ele gostava do passado. Mas não tornou a vê-lo, ninguém mais viu Crane, perdeu-se nas profundezas do Golfo. Quando desembarcaram em Nova Orleans, Crane já não estava, já não estava nem para a arte da negativa.

Bartleby e companhia
Enrique Vila-Matas

sábado, 8 de maio de 2010

Por Holden Caulfield

Depois que acabou o negócio do Natal começou a porcaria da fita. Era tão ruim que eu nem pude despregar os olhos da tela. Era sobre um camarada inglês, Alec qualquer coisa, que vai para a guerra e perde a memória no hospital e tudo. Depois sai do hospital de bengala e mancando por tudo quanto é lado, por Londres toda, sem saber quem é ou onde está. Na verdade, ele é um duque, mas não sabe de nada. Aí encontra num ônibus uma garota boazinha, caseira e sincera pra chuchu. A droga do chapéu dela cai e ele apanha e, depois que sobem, começam a conversar sobre Charles Dickens. É o escritor predileto dos dois e tudo. Ele está com o "Oliver Twist" debaixo do braço e ela também. Quase vomitei. De qualquer forma, se apaixonam de estalo, só porque os dois são tarados pelo Charles Dickens, e ele vai ajudá-la a dirigir uma editora. A moça é editora. Só que o negócio não está indo bem, porque o irmão dela é porrista e mete o pau no dinheiro todo. Era um camarada amargo pra diabo, o irmão; ele era médico, mas depois da guerra não podia mais operar porque ficou com os nervos em pandarecos. Por isso vivia enchendo a cara, mas era muito espirituoso e tudo mais. Seja como for, o tal do Alec escreve um livro, a moça publica e os dois ganham um caminhão de dinheiro. Estão com tudo pronto pra casar, quando aí aparece uma tal de Márcia. A Márcia era noiva do Alec antes dele perder a memória, e o reconhece quando ele está na loja autografando o livro. Ela diz ao Alec que ele é Duque, mas ele não acredita e não quer ir com ela visitar a mãe dele e tudo. A velhinha é cega como um morcego. Mas a outra garota, que é muito mais simples, manda ele ir. Ela é muito altruísta e tudo mais. Aí ele vai. Mas nem assim recupera a memória, nem quando o cachorro dinamarquês pula em cima dele, e a mãe passa os dedos pelo rosto dele todo e traz o ursinho que ele carregava para todo lado quando era menino. Então, um dia, uns garotos estão jogando críquete no parque e ele leva uma bolada na cabeça. Aí, na mesma hora, ele recupera a droga da memória e vai lá dentro beijar a testa da mãe e tudo. E começa a ser um duque normal, e se esquece da garota boazinha que tem a editora. Eu podia contar o resto da estória, se não me desse tanta vontade de vomitar. Não que eu fosse estragar o filme para ninguém nem nada. No duro, não há o que estragar. De qualquer forma, acaba com o Alec e a garota boazinha se casando, e o irmão que é porrista fica bom dos nervos e opera a mãe do Alec, restituindo-lhe a visão, e aí o irmão beberrão e a Márcia se apaixonam. Termina todo mundo numa baita mesa de jantar, rindo como uns idiotas porque o dinamarquês entra com uma ninhada de cachorrinhos. Acho que todo mundo pensava que o cachorro era macho ou qualquer droga parecida. Só sei dizer que, quem não quiser vomitar até morrer, não deve nem entrar no cinema quando estiver passando essa fita.

O apanhador no campo de centeio
J. D. Salinger

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Um poema para a velha dente-podre

Conheço uma mulher
que segue comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que finalmente se encaixam
numa espécie de ordem.
Ela se dedica à questão
de modo matemático
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive perto do mar
põe açúcar para as formigas lá fora
e acredita
definitivamente
num mundo melhor.
Seu cabelo é branco
raramente o penteia
seus dentes são podres
e ela veste macacões frouxos
e amorfos sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
Ao longo de muitos anos ela me irritou
com o que eu considerava suas
excentricidades:
como mergulhar conchas na água
(para que ao regar as plantas elas
recebessem cálcio).
Mas finalmente quando penso na sua
vida
e comparo a outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer outra pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
Ela enfrentou alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
porque era a mãe da minha única
filha
e uma vez fôramos grandes amantes,
mas ela havia superado essas dificuldades
como eu disse
das pessoas que conheço ela foi a que machucou
menos gente,
e se você olhar pra isso pelo que isso significa,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.

Frances, este poema é pra você.

Charles Bukowski

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Gigante

Eu menti. Me chamo Amélia. Mas poderiam me chamar Angélica, ou Maria, ou Joaquina, ou Antônia, ou até mesmo Zoraide, o nome não importa. E se José fosse o nome escolhido, será que ainda assim não importaria? De que adianta pensar nisso agora? Já me peguei com essa pergunta atravessada inúmeras vezes, mas a resposta tem sido sempre a mesma (para saber como seria se me chamasse Maria, só me chamando Maria) e isso me irrita. Não me servem de nada as divagações porque vivo presa num fato que é irrefutável: Amélia. Quando me chamam de Amélia, meu corpo responde automaticamente, identifica o som que é ligado pelo meu cérebro instantaneamente à imagem: eu. O fato de me chamarem Amélia me define. A ideia do definitivo me assusta. Responder por Amélia significa agir como tal.

Hoje ela chorou por colo.
Ela só queria encostar.

Era amor grande demais.
Imenso.
Gigante.
Amor grande daquele,
só podia caber dentro dela.
E só ela aguentaria a dor
de ver grande amor daquele,
gigante,
imenso,
virando pó.

Ela continua pagando pra ver o invisível.

[Meu médico me receitou champanhe gelado.
E gelo nas têmporas.]

Ela gostaria de não ter se esquecido das cores e das coisas.
Ela não tinha pé, perdeu a mão e saiu meio sem nada.
Saiu de casa procurando a solidão como quem procura alguém.
Saiu cantando um trechinho de uma música sem melodia.
(...) um sucesso de um fracasso
um osso dando um passo
rumo ao amor
mais falso
do mundo (...)

Tinha um sol inteiro pra ela.

Como se puni quem não se arrepende? - Ela pensava.

Mesmo quando foge de casa, Amélia volta pra arrumar a bagunça que deixou pra trás.